Rio sem carro: os mais belos trajetos para se apreciar da janela do ônibus


 

“Do Leme ao Pontal, não há nada igual”

Tim Maia

 

Quem já leu neste blog alguns dos textos desta aqui que vos escreve, conhece a ladainha: sou paulistana mas moro no Rio de Janeiro há 15 anos. E, dentre as diversas alterações no meu estilo de vida que essa mudança de cidade acarretou, quero aqui falar da mais paradigmática de todas: pouco antes de me mudar para o Rio, vendi meu carro – um Renault Clio 1000 – e, desde então, nunca mais tive outro.

Digo que foi paradigmática porque dirijo desde os 16 anos de idade. Com 18, tirei minha carteira de motorista e, sem falsa modéstia, posso dizer que sempre dirigi bem. Aprendi a fazer baliza tendo que estacionar o carro de marcha ré na ladeira da FGV na Avenida Nove Julho em São Paulo. Quem conhece, sabe do perrengue que estou falando… mas aí, pumba! O destino me trouxe para as terras da Guanabara. E, no início, a decisão de vender o carro foi prática: primeiro, eu não conhecia patavina da cidade e ia me perder feito uma louca (na época, não havia Waze nem Google Maps, nem coisa parecida). Segundo, meu ex marido também tinha um carro –  e no prédio em que íamos morar só tinha uma vaga na garagem. Aí então eu não hesitei. Vendi o meu Clio.

Confesso que no começo eu ainda pegava o carro do meu ex e ficava dividindo com ele. Mas, quando minha filha Graziela nasceu eu adotei a bicicleta como meio de transporte e, durante uns 8 anos mais ou menos eu fazia absolutamente tudo de bicicleta. Graziela ia comigo na cadeirinha – primeiro na frente da bike quando ela ainda era bebê e depois atrás. Nessa época, eu tive uma sociedade com duas amigas – uma marca de lingerie –  e nossas reuniões eram na casa de uma delas em Copacabana. E lá ia eu de bicicleta. Levava e buscava Graziela na escola, levava para natação, fazia compras, ia para a terapia. Tudo de bike.

Algum tempo depois, virei funcionária pública. Trabalhando no centro do Rio, fiquei grávida do Francisco, meu segundo filho, quando então o transporte público já  havia entrado de uma vez por todas na minha vida. E lá ia eu de barrigão no ônibus. Foi também quando cheguei à conclusão que uma cidade cujos habitantes dão prioridade ao transporte público ao invés do carro pode tornar-se uma cidade muito melhor. Aliás, a meu ver, o carro inibe a cidade e o exercício da cidadania. Nada acontece quando você vai de um lugar a outro de carro. Não há interação com nada. Ao passo que, num transporte público, querendo ou não, você é obrigado a ser cidadão. Isso sem contar a devastação urbana que uma cidade voltada para carros produz. Nada é mais hostil do que um lugar cortado apenas por largas avenidas e estreitas calçadas.

Eu sei que ainda estamos a anos-luz de ter transporte público de qualidade por toda a cidade do Rio de Janeiro, “do Leme ao Pontal”, passando pelos mais remotos subúrbios. Mas, mesmo assim, com o que temos, já dá para abandonar o carro até mesmo como forma de reivindicar que haja sempre mais melhorias.

Hoje, eu já não ando mais de bicicleta. Continuo, porém, andando muito por todo o Rio de Janeiro. Sem carro.

Logo, nessas andanças de ônibus pelo Rio, foi bastante natural perceber que na cidade maravilhosa existem diversos trajetos maravilhosos – de cuja vista você só poderá desfrutar caso não esteja dirigindo um carro. Por isso, gostaria de deixar um ousado palpite: as linhas de ônibus que possuem os mais belos trajetos do Rio de Janeiro. Do Leme ao Pontal.

1.  557 – Rio das Pedras – Copacabana (Circular)

Partindo da Estrada de Jacarepaguá, logo em seguida você estará na bonita estrada do Itanhangá, seguindo pela também bela e arborizada estrada da Barra. Chega-se então à Ponte Nova, onde você já terá sua primeira vista do mar. Logo depois o veículo percorre a estrada do Joá, com sua deslumbrante paisagem. Segue então pela estrada Lagoa-Barra para logo depois cair na belíssima

Avenida Niemeyer, desembocando nas Avenidas Delfim Moreira e Vieira Souto, onde você irá apreciar toda a orla Leblon-Ipanema. Antes de chegar ao ponto final, na Rua Figueiredo de Magalhães em Copacabana, você ainda tira uma casquinha da Avenida Atlântica – orla de Copacabana – por onde ele passa ao dar uma pequena volta antes de entrar na Figueiredo de Magalhães.

2.  517 – Gávea (PUC) – Glória (via Fonte da Saudade) (Circular)

Partindo da PUC, esse ônibus tem um trajeto lindo. Pega, logo depois da Avenida Padre Leonel Franca, a Avenida Delfim Moreira, onde você irá apreciar a orla do Leblon. Em seguida, vira na Avenida Henrique Dumont para seguir pela Avenida Epitácio Pessoa, onde você terá a magnífica vista da Lagoa Rodrigo de Freitas. Logo depois, chega à Fonte da Saudade e Rua Humaitá, descendo a rua Voluntários da Pátria (Botafogo) até chegar à Praia de Botafogo, onde você também terá uma bela vista até chegar na Glória.

3.  415 – Usina – Leblon (Circular)

Esse é meu queridinho, pois passei anos indo trabalhar com ele. No trajeto de volta – que era o que eu pegava – sai do Leblon e pega a Avenida Ataulfo de Paiva e Visconde de Pirajá em Ipanema. Nesse trajeto não há vista da orla, mas você percorre as duas ruas de comércio mais badaladas do Rio para em seguida percorrer a famosa Avenida Nossa Senhora de Copacabana que, se não te propicia a vista do mar, te recompensa com os belos prédios estilo art déco por toda a sua extensão. Sem contar o seu comércio frenético e o vai e vem de pessoas que já são uma distração à parte. Em seguida, pega a Avenida Princesa Isabel para então contornar todo o Aterro do Flamengo, passando antes pela deslumbrante orla da praia de Botafogo onde você fica alguns minutos apreciando o Pão de Açúcar bem de pertinho. Depois, pega a Av. Marechal Câmara (onde eu descia) e segue pela Av. Franklin Roosevelt, Av. Presidente Antonio Carlos, R. Primeiro de Março e Av. Presidente Vargas, antes de seguir pela  Av. Paulo de Frontin, chegando na R. Conde de Bonfim, na Tijuca, outra avenida onde você encontra um frenético comércio e muito burburinho e vai e vem de pessoas até chegar, pela avenida Edison Passos, ao Largo São Camilo de Lellis, no bairro da Usina.

4.  817 A – Vargem Grande  – Recreio (Circular)

Essa linha tem no seu trajeto a Estrada do Pacuí e a Estrada dos Bandeirantes. O trecho coberto por essas estradas nos remete um pouco a um Rio rural onde é possível ver uma paisagem intocada pelo homem. Em seguida, surge a estrada do Pontal, oferecendo uma das mais belas vistas do Recreio dos Bandeirantes e ainda abrigando o Museu do Pontal e o Camping Clube do Brasil.

5.  107 – Central  – Urca (Circular)

Esse ônibus faz um passeio pela Urca. Inicia o itinerário na Rua Cândido Gafree para logo em seguida virar na Avenida João Alves, que beira toda a orla da Urca. Continua pela Avenida Portugal, que também faz parte da orla deste bucólico bairro do Rio. Depois, segue pela Praia de Botafogo, Praia do Flamengo e Avenida Beira-Mar, até chegar ao centro do Rio.

 

6.  2334 – Castelo – Recreio

Essa linha percorre toda a orla da Barra para em seguida continuar por São Conrado, na direção do Centro. Vá contemplando o mar até o Aeroporto Santos Dumont, antes de chegar ao ponto final, no Castelo. Um passeio à caminho do trabalho. Ainda mais porque ele é o conhecido “frescão”, um daqueles famosos ônibus com poltronas reclináveis e ar condicionado. Custam um pouco mais, mas proporcionam um conforto ímpar.

E então? Animou-se em vender seu carro? Tudo bem, não precisa radicalizar. Apenas reflita se não é melhor deixá-lo na garagem de vez em quando para apreciar a paisagem.

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Maria Carolina Amendolara

administradora de empresas, paulistana com cidadania carioca, mãe de Graziela e Francisco, ama tomar vinho e cozinhar para os amigos, nossa morena encaracolada, e, claro, palpiteira.

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2 Comentários

  • Eliezer
    13 de setembro de 2017 at 16:05

    Saudades da antiga linha 175 (Central – Alvorada) que também cobria toda a orla da Zona Sul e virou rap do Gabriel Pensador!

    • Maria Carolina
      Maria Carolina
      4 de outubro de 2017 at 12:53

      ihhhhhh acho que essa não era do meu tempo de Rio de Janeiro…! Mas, muito obrigada pelo palpite nostálgico, Eliezer!

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