Hospedagens alternativas: porque você tem que fugir dos hotéis


Durante muito tempo, quando pensávamos em viajar para conhecer lugares distantes, culturas diferentes, a oferta de hospedagem de certa forma limitava nossas possibilidades de descoberta. Se não tivesse amigos ou conhecidos no local que lhe pudessem ceder um quarto ou um sofá, você certamente teria que procurar um hotel, como a massa dos turistas.
Hoje, porém, a tecnologia que liga as pessoas umas às outras está permitindo que muita gente experimente o turismo de uma outra forma, mais imersiva, mais próxima, menos dependente de uma onerosa estrutura hoteleira, enfim, que muita gente experimente o turismo de uma forma mais humana. Meu palpite é que você percorra comigo a diversidade de plataformas de hospedagem alternativa e entenda as razões para essa mudança de paradigma.

Saiba que a globalização tem duas facetas: se por um lado ela transforma o mundo em um grande shopping center, padronizando gostos, levando as pessoas a consumirem sempre as mesmas marcas pertencentes a meia dúzia de corporações, por outro ela aproxima as culturas de tal maneira que todos podem sair ganhando ao resolver se aventurar em outro universo de costumes, seja simplesmente por se interessar por outros modos de vida, seja, como é o caso aqui, por resolver se hospedar em uma casa ou apartamento de verdade e com isso se aproximar da vida local.

São diversos os sites especializados. Há aqueles, como o Airbnb e o Wimdu, onde você simplesmente pode encontrar um quarto, um apartamento ou até uma casa acolhedora e pagar pouco por isso. Há também o Couchsurfing, onde o viajante pode conseguir gratuitamente um local para dormir, nem que seja o sofá do seu anfitrião. Já o Warm Showers, exclusivo para quem viaja de bicicleta, disponibiliza um mapa interativo que permite visualizar os anfitriões disponíveis nas áreas próximas ao seu trajeto. Se você deseja uma integração ainda maior à comunidade local e está disposto a fazer alguns pequenos serviços, como cuidar dos filhos do anfitrião ou de uma criação de animais, em troca de hospedagem, há o Work Away e o Help X. Se a sua “moeda de troca” é cuidar dos animais de estimação da casa, há o Trusted House Sitters. Por fim, há o intercâmbio de residências, através de sites como o Home Exchange e o Guest to Guest, onde você cadastra sua casa ou apartamento, depois passa por toda uma verificação de confiabilidade, e se habilita a travar conhecimento mútuo com outros usuários ao redor do mundo a fim de concretizar a troca temporária.

Vale lembrar que todas essas opções contam com sistemas de pontuação onde os usuários avaliam a hospitalidade de quem os recebe, a estada dos hóspedes, o conforto, o convívio, etc, de modo a reduzir os riscos envolvidos. Todas permitem também uma interação entre os usuários para acertar todos os detalhes da hospedagem.

Da última vez em que estive na França com minha esposa, não hesitei em usar o AirBnB. O que posso dizer é que fomos imediatamente conquistados, ao chegar cansados tarde da noite carregados de malas, pelo acolhimento encontrado. Aquilo ali não era um cenário montado, não era de maneira nenhuma aquele ambiente pasteurizado, genérico, que os hotéis montam para atrair fregueses genéricos que querem coisas genéricas. Ao contrário, era um apartamento francês vivo, respirante como a moradora que nos recebeu e passou todos os detalhes do seu funcionamento: a localização do armário, a tranca da porta, a ligação do aquecedor, o uso da cozinha, os hábitos do gato… 

Aprendi muitas coisas com essa experiência. Por exemplo? Pude observar de perto uma das peculiaridades da França: lá os banheiros não são completos como aqui, com todos os equipamentos reunidos num mesmo cômodo. O que se tem na França são dois cômodos diferentes destinados a atividades muito diferentes: les toilletes, com o vaso sanitário e um lavatório (nem sempre), e a salle des bains, específica para o banho. E essa diferença nada mais é do que a representação de um traço cultural muito valorizado pelos franceses: a separação entre o que é de uso relativamente público e o que é da esfera da intimidade. Nesse sentido, o sanitário é mais acessível às visitas e seu cômodo é caprichosamente decorado e próximo à sala de estar, enquanto que o espaço do banho (a ducha e/ou a banheira), atividade que normalmente não será do interesse de uma visita, é mais privativo aos moradores – no apartamento onde me hospedei, o acesso à salle des bains se dava justamente pelo quarto da anfitriã!

Ok, eu entendo se o leitor for uma daquelas pessoas que amam serviço de quarto, mordomias 24h: talvez uma pessoa assim venha a se sentir inibida com tantas novidades. Talvez ela fique pensando: “já não basta percorrer ruas diferentes, conhecer lugares inesperados, agora querem me tirar a possibilidade de pelo menos pernoitar num ambiente previsível?”. Entendo aquele que possa achar incômodo ficar inteiramente cercado pela vida local. Mas fique então com essa dica: fuja dos clichês, do lugar-comum, das obviedades do turista padrão. Se o objetivo de viajar é experimentar o novo, por que não mergulhar de cabeça na ideia?

Enfim, já experimentou uma forma alternativa de hospedagem e quer contar como foi? Sinta-se à vontade para palpitar conosco.

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sociólogo, carioca, pai da Amelie, vai do samba de raíz ao rock ‘n roll sem escalas, escreve bem pacas, nosso moreno claro e, lógico, palpiteiro.

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